Acordo entre MERCOSUL e União Europeia entra em nova fase e pressiona Brasil a sair da retórica comercial para a competitividade real
Aplicação provisória prevista para 1º de maio recoloca o tratado no centro da agenda econômica e expõe um ponto sensível para o Brasil: abrir mercado é uma coisa; estar preparado para disputar valor dentro dele é outra
Depois de mais de 25 anos de negociações, o Acordo entre MERCOSUL e União Europeia finalmente deixa de ser apenas uma promessa diplomática e passa a entrar no terreno em que tratados comerciais realmente se provam: o da economia real.
A Comissão Europeia informou que a aplicação provisória da parte comercial do Acordo está prevista para 1º de maio de 2026, desde que os procedimentos de ratificação exigidos sejam concluídos pelos países envolvidos. A medida ocorre poucos meses após a assinatura formal do texto, em janeiro, e muda o centro de gravidade do debate. A partir daqui, a discussão já não é apenas política. Ela passa a ser empresarial, industrial, regulatória e logística.
O tratado reúne um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e conecta duas regiões que, somadas, representam cerca de um quarto do PIB global. Em 2024, o comércio bilateral entre União Europeia e MERCOSUL girou em torno de € 111 bilhões, segundo dados divulgados por autoridades europeias. O tamanho do bloco é frequentemente lembrado por diplomatas, mas, para o setor produtivo, o ponto central é outro: o acordo reduz barreiras, mas também encurta a distância competitiva entre empresas que operam em ambientes muito diferentes.
Para Rodrigo Bueno Prestes, especialista em direito internacional e comércio exterior, o problema nunca foi apenas assinar o acordo. “Durante muito tempo, o debate ficou concentrado na ideia de acesso a mercado, como se a abertura em si fosse suficiente para gerar ganho econômico. Não é assim que funciona. O Acordo cria oportunidades, mas também aumenta o nível de exigência para quem quer competir dentro dele.”
A leitura é especialmente importante para o Brasil porque o Acordo tende a acelerar uma assimetria que já existe hoje. De um lado, a União Europeia entra nessa relação com cadeias industriais mais densas, maior integração tecnológica, maior previsibilidade regulatória e infraestrutura logística mais eficiente. De outro, o Brasil (MERCOSUL) ainda carrega gargalos que há anos encarecem sua inserção internacional: custo de transporte, burocracia aduaneira, baixa agregação de valor em parte relevante das exportações e uma dependência histórica de fluxos mais concentrados em commodities.
A própria União Europeia tem deixado claro onde espera capturar valor mais rapidamente. Em material oficial sobre o Acordo, a Comissão Europeia afirma que a abertura do MERCOSUL permitirá economias superiores a € 4 bilhões por ano em tarifas para empresas europeias, além de melhorar o acesso de setores como automotivo, máquinas, químicos, farmacêuticos e bens industriais. Hoje, produtos europeus enfrentam no bloco mercosuliano tarifas que chegam a 35% para autopeças, 20% para máquinas, 18% para químicos e 14% para farmacêuticos.
Na prática, isso significa que o Acordo pode destravar ganhos relevantes para a indústria europeia muito rapidamente, especialmente em setores nos quais o Brasil já opera com desvantagem de escala, produtividade ou densidade tecnológica. “Existe uma diferença importante entre exportar mais e capturar mais valor. O Brasil pode ampliar o fluxo comercial e, ainda assim, continuar ocupando uma posição periférica em cadeias globais mais sofisticadas se não houver avanço interno em produtividade, logística e ambiente regulatório”, afirma Rodrigo Prestes.
A logística entra no centro da equação
Se a dimensão industrial é a mais visível, a logística é provavelmente a mais imediata.
A entrada em vigor da vertente comercial do Acordo tende a mexer com uma cadeia inteira de decisões empresariais: escolha de rotas, negociação de frete marítimo, uso de hubs portuários, armazenagem, contratos de longo prazo, despacho aduaneiro, planejamento tributário e redesenho de centros de distribuição.
Não se trata apenas de mais carga. Trata-se de outro padrão de carga.
Hoje, boa parte do comércio entre Brasil e Europa já depende de cadeias relativamente maduras para produtos agroindustriais e minerais. Com o Acordo, a expectativa é que ganhem peso também fluxos mais intensivos em integração produtiva, insumos intermediários e bens com maior valor agregado. Isso tende a exigir mais previsibilidade, mais coordenação e mais eficiência de ponta a ponta. “O efeito mais relevante pode não aparecer primeiro no volume, mas na qualidade da operação. A tendência é de aumento da exigência sobre portos, operadores logísticos, armazenagem e processos aduaneiros. Quando o comércio deixa de ser pontual e passa a ser mais integrado, a logística deixa de ser suporte e vira parte da estratégia”, diz Rodrigo Prestes.
Esse ponto é especialmente sensível para o Brasil. A abertura de mercado pode até favorecer o aumento do fluxo comercial, mas isso não significa, automaticamente, que a estrutura logística nacional esteja pronta para capturar a melhor parte desse movimento. O país ainda convive com gargalos históricos em portos, dependência rodoviária elevada e uma matriz de transporte que há anos cobra competitividade da indústria exportadora.
Em um acordo dessa escala, eficiência logística deixa de ser apenas uma vantagem operacional. Ela passa a funcionar como um diferencial de acesso.
Entre a promessa geopolítica e a disputa por valor
O contexto internacional também ajuda a explicar por que o Acordo voltou a ganhar tração. Em um ambiente global mais fragmentado, com tensões comerciais entre grandes economias e crescente preocupação com dependência excessiva de poucos parceiros estratégicos, tanto Europa quanto América do Sul passaram a enxergar o tratado como instrumento de reposicionamento.
Para a União Europeia, o Acordo é parte de uma estratégia mais ampla de diversificação comercial e industrial. Para o Brasil (MERCOSUL), ele pode representar uma janela rara para ampliar presença em cadeias globais de valor, atrair investimento e reduzir a lógica de inserção internacional excessivamente concentrada em exportações primárias.
Mas essa oportunidade não vem sem risco.
Se o país não usar o Acordo como gatilho para elevar competitividade sistêmica, o resultado pode ser uma abertura assimétrica: mais importações em setores sofisticados, sem contrapartida equivalente na expansão de exportações de maior valor agregado.“Todo acordo comercial importante traz dois movimentos ao mesmo tempo: expansão de oportunidade e aumento de exposição. O problema é quando um país se prepara apenas para a primeira parte e ignora a segunda”, afirma Rodrigo Prestes.
Ele diz que o maior erro de leitura seria tratar o Acordo como um fim em si mesmo. “O acordo não é a chegada. Ele é o começo de uma disputa mais dura. E, nesse tipo de disputa, não ganha quem assina primeiro. Ganha quem tem condição real de competir.”
O que muda a partir de maio
A entrada em vigor provisória não encerra a discussão institucional na Europa. O Acordo ainda segue sujeito a etapas políticas e jurídicas importantes, e o histórico europeu mostra que tratados comerciais podem conviver, por anos, com aplicação parcial e consolidação gradual. Ainda assim, isso não reduz o peso do que acontece agora. Ao contrário.
Mercado, investimento, supply chain e planejamento empresarial raramente esperam o rito formal completo para se reposicionar.
Por isso, o mês de maio tende a funcionar menos como um marco protocolar e mais como um sinal de mercado.
Para empresas brasileiras, sobretudo as que operam com importação, exportação, indústria, logística, distribuição e comércio exterior, a nova fase do Acordo exige um olhar menos diplomático e mais estratégico.
A discussão, daqui para frente, deixa de ser se o Acordo vai acontecer.
Ela passa a ser quem está pronto para operar dentro dele.
Fonte: Abigail B D Reis - Gerente de Contas Estratégicas
abigail.reis@baronesarp.com.br
Via: Agência Logística de Notícias
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