Quatro navios com tripulações abandonadas mobilizam atuação do MPT em 2026

Por Nicolas Suppelsa

Quatro navios com tripulações abandonadas mobilizam atuação do MPT em 2026
Navio africano ficou quase dois meses à deriva - Photo: (Divulgação) Marinha do Brasil

Por MPT — Quatro embarcações com tripulações em situação de abandono chegaram a portos brasileiros nos últimos 45 dias, levando o Ministério Público do Trabalho (MPT) a atuar de forma emergencial para garantir direitos básicos, assistência humanitária e o pagamento de salários atrasados aos trabalhadores marítimos. O número chama atenção: nos dez anos anteriores, entre 2014 e 2025, apenas três casos semelhantes haviam sido registrados no país.

A sequência de ocorrências levou a Coordenadoria Nacional do Trabalho Portuário e Aquaviário (Conatpa) do MPT a discutir a elaboração de protocolos internos específicos para lidar com situações de abandono de tripulantes, que envolvem não apenas questões trabalhistas, mas também desafios humanitários, migratórios e diplomáticos. “Isso demonstra a necessidade de aperfeiçoar nossa atuação para proteger esses trabalhadores, que muitas vezes chegam ao Brasil sem salários, sem alimentação adequada, sem água e sem qualquer assistência”, destaca o coordenador nacional da Conatpa, o procurador do Trabalho Alexandre Ragagnin.

Da falta de salários à escassez de água e alimentos

Os casos registrados neste ano ocorreram em Macapá (AP), no Rio de Janeiro (RJ) e em Fortaleza (CE). O primeiro envolveu o navio mercante MV Latifa, de bandeira da Tanzânia, que sofreu falhas mecânicas e permaneceu à deriva na costa do Amapá antes de ser rebocado. Fiscalizações realizadas por diversos órgãos identificaram falta de água potável, escassez de alimentos, condições precárias de higiene e indícios de abandono por parte do armador.

A atuação do MPT resultou na assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que garantiu indenização de US$ 5 mil para cada tripulante, custeio de hospedagem, alimentação e deslocamento, além da repatriação dos trabalhadores aos seus países de origem. O acordo também determinou a adequação das condições sanitárias da embarcação e a formalização dos contratos de trabalho em conformidade com a Convenção sobre o Trabalho Marítimo (MLC).

No Rio de Janeiro, dois navios passaram a ser acompanhados pelo MPT após denúncias de abandono de suas tripulações. Em um dos casos, envolvendo a embarcação mexicana Lagunero, a Justiça do Trabalho deferiu liminar determinando o pagamento de mais de R$ 3 milhões em salários atrasados, além do fornecimento imediato de água potável, alimentos e combustível. A decisão judicial também determinou a indisponibilidade da embarcação, impedindo sua saída das águas brasileiras, e estabeleceu medidas para garantir a regularização migratória e a repatriação assistida dos trabalhadores.

Drama humanitário em Fortaleza

O caso mais recente ocorreu em Fortaleza e envolve o navio-tanque MT NW Aidara. A embarcação navegava entre países africanos quando sofreu uma grave falha hidráulica e ficou à deriva no Oceano Atlântico por mais de 50 dias.

Durante esse período, os tripulantes sobreviveram em condições extremas. Quando as correntes marítimas conduziram o navio para águas jurisdicionais brasileiras, a Marinha do Brasil realizou o resgate e conduziu a embarcação ao Porto de Fortaleza. Os trabalhadores, em sua maioria ganeses, chegaram ao Brasil sem contratos formais, com salários em atraso e necessitando de atendimento médico e psicológico.

Diante do cenário, o MPT no Ceará ajuizou ação civil pública e obteve decisão liminar determinando o arresto da embarcação e seu impedimento de deixar o porto. A Justiça também ordenou que as empresas responsáveis garantissem água potável, alimentação, combustível e a repatriação dos tripulantes que desejarem retornar aos seus países de origem.

Proteção

A legislação internacional estabelece que a proteção dos marítimos é uma responsabilidade compartilhada entre diversos atores: o Estado de bandeira da embarcação, o armador, as seguradoras, o país de origem dos trabalhadores e o país onde a embarcação se encontra.

Na prática, porém, segundo o MPT, essas responsabilidades frequentemente acabam sendo negligenciadas quando ocorre o abandono da tripulação. “Quando surge uma situação dessas, todos dizem que não são responsáveis. Enquanto isso, os trabalhadores permanecem sem salários, sem alimentação, sem água e sem qualquer perspectiva de retorno para casa. O que o Ministério Público do Trabalho tem feito é justamente assegurar que essas pessoas não fiquem desamparadas”, explica Alexandre Ragagnin.

Nos casos acompanhados pelo órgão, a atuação busca garantir o pagamento de salários atrasados, a manutenção das condições mínimas de sobrevivência a bordo, assistência médica, regularização migratória e a repatriação segura dos trabalhadores.

Mesmo quando os tripulantes optam por retornar aos seus países antes da conclusão dos processos judiciais, o MPT continua cobrando os créditos trabalhistas devidos.

Atuação rápida diante de um fenômeno crescente

Para o MPT, a sucessão de casos registrados neste ano evidencia a necessidade de aperfeiçoar mecanismos de resposta a situações de abandono de marítimos. A partir das experiências recentes, a Conatpa iniciou a elaboração de orientações internas para uniformizar a atuação dos procuradores em todo o país. “Existe uma questão humanitária muito forte por trás desses casos. Estamos falando de pessoas que passam semanas ou meses sem receber salários, sem alimentação adequada, sem água e muitas vezes sem qualquer assistência médica. O Ministério Público do Trabalho teve pronta atuação em todos esses episódios e continuará trabalhando para assegurar a proteção dos trabalhadores marítimos e o cumprimento das normas internacionais que garantem seus direitos”, conclui o coordenador.

 

Fonte: Notícias Pronteção+

Via: Agência Logística de Notícias

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